quarta-feira, março 01, 2006

Serei sempre o teu público

O meu público


"Quando escrevo, o meu único público sou eu.
Depois é que me ponho à espera de que sejam também os outros.
Não porque antes os menospreze: simplesmente porque não existem.
Mas é evidente que me interessa que existam depois como público pelo desejo natural de me confirmarem a existência como escritor. Porque a existência como escritor implica a audiência dos outros.
Não escolho porém o público - espero que ele me escolha. Seria duro que me não escolhesse, por todas as implicações que se adivinham. Mas não é impeditivo de continuar - excepto se me convencerem (quem se convence?) que não tinha nada a dizer. E no entanto, se nós exprimirmos o tempo que nos exprime, há um pacto indissolúvel entre o tempo e nós. Assim, o nosso público está aí sempre, ainda que tenhamos que ser nós a despertá-lo.
Esse público não desperta se nós de facto lhe não falarmos, ou seja, se realmente não houve pacto algum com ele. Todas estas questões, porém, são supérfluas para a necessidade de escrever. Cumpre-se um destino de artista como outros o de serem santos ou criminosos... O resto não é connosco - é com os críticos, os hagiógrafos e os arquivos da polícia. "

Vergílio Ferreira, in 'Um Escritor Apresenta-se'

Faz hoje dez anos em que ouvi na televisão que o meu maior escritor tinha morrido. Continuo a ser o teu público porque releio as tuas palavras e lembro-me muitas vezes das tuas personagens para melhor compreender o que se passa aqui.... deste lado do mundo.

1 comentário:

Carecone disse...

Olha eu aqui!
Olha você aí, sempre me alimentando com o Vergílio!
Me fazendo público dele!
Muito obrigado!